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24/11/2014
ARTIGO: As prisões e o olhar do estrangeiro brasileiro

Por Barry Wolfe*

 

Okay, então chegamos àquele ponto que ninguém julgava que chegássemos. Parte dos supostos bad guys está, até sursis em contrário, atrás de grades. Supostos, sim, e sem outro motivo senão a necessidade de se provar que são de fatos os chefões de parte do mal espalhado no meio ambiente da Petrobras e controladas, entre outras talvez tantas companhias similares. 


Ouço pelos corredores corporativos alguns ‘até que enfim’ e outros ‘eles eram as vítimas, não os piores bandidos’. O mercado, esse ser multiforme, medusa de opiniões contraditórias, está confuso. Não para menos. Todo mundo sabe que o mercado não gosta de confusão. Prefere a permanência ou as soluções de descontinuidade, se necessárias, sem alarde. Mas a bagunça está feita e os dados rolam.


Fico olhando isso de longe e de perto, e a sensação que tenho é de estranheza, o que quem sabe bata com emoções suscitadas em outras tantas pessoas. Ou talvez nem tanto, já que sou um tipo de brasileiro sui generis: nasci longe, na Escócia, mas há 30 e tantos anos escolhi renascer no Brasil. A visão que tenho do que ocorre é, ao mesmo tempo, de brasileiro e de estrangeiro.


Apesar de certos desconfortos eventuais que há no fato de ser um duplo, no sentido cultural da percepção emocional e intelectual, penso que alguma vantagem tenho sobre o olhar do brasileiro nato e, por certo, sobre o do estrangeiro puro. Quando as empresas me contratam para investigar casos de corrupção e outras falcatruas que rolam em seus organismos é, em parte, esse olhar enviesado e bipartido que as move. Freud, o criador da psicanálise, dizia da importância de olhar um objeto de estudo sob todos os ângulos possíveis, o girando como pião lento para observar o outro lado – e sempre há um outro lado, ainda que tal objeto já tenha sido exaustivamente investigado. Meu duplo olhar talvez me ajude nesse sentido.


Mas o quê mesmo isso tem a ver com as prisões de presidentes, VPs e diretores de companhias no topo da cadeia alimentar corporativa brasileira? Muito, acho. Não digo que coisas novas e chocantes para a média do cidadão serão descobertas – isso vai acontecer de uma forma ou de outra. Meu ponto é outro. Falo de poder vivenciar a estranheza do que está ocorrendo.


Desde os anos 80 já vivi mudanças sensacionais no Brasil, muitas das quais inesperadas e dotadas de um brilho tropical único – o que foi feito para substituir os militares no poder, a fúria das ruas que varreu Collor, o trabalhoso mas quase mágico momento em que a inflação de 50 anos foi decepada por Itamar e FHC, a chegada de Lula ao Planalto: essas coisas me inspiram como brasileiro a acreditar que o melhor futuro previsto por Stefan Zweig, um empedernido pessimista otimista, por fim foi chegando.

 

Mas então olho com o olho pragmático do escocês que em algum lugar mora em mim e vejo o preço que se paga, e, antes e pior, a resiliente continuidade da cultura da lei de Gerson, do rouba mas faz, do sabe-com-quem-está-falando, e aí muita coisa parece perder o sentido. Adam Smith, escocês, pai da teoria de economia do mercado, deixava claro que lucro sem ética não vale. Fico me perguntando se esses traços culturais tão profundos serão de alguma maneira terraplanados pelo que hoje ocorre. E é claro que não sei – sou advogado e investigador, não mago – assim como ninguém em boa consciência pode dizer que sabe.


O que me dá um tanto de esperança é o conceito de entropia moral. Nos ambientes caracterizados por corrupção, ocorre algo que se pode chamar dessa maneira. Análoga à entropia da física quântica, ela denota que um ambiente “podre” vai deteriorar exponencialmente. Não há como melhorar sozinho. É preciso um input de “energia positiva” para mudar a situação.


Estamos vendo justamente esse input de “energia positiva” na forma de atuação da Polícia Federal. Estamos vendo a PF independente e agressiva que não tem medo de ninguém e não responde ou obedece ordens espúrias. Investiga a fundo e não pensa duas vezes para prender empresários e executivos importantes quando existem provas. Ha empecilhos políticos a ir atrás dos receptadores de corrupção por enquanto. Entretanto,  a PF pode pegar – e está fazendo isso – os pagadores.


Lógico que é um passo na direção certa. Mas será que a sociedade brasileira quer mesmo se livrar da corrupção endêmica?
Meu olho escocês às vezes acha que não. Meu olho brasileiro brilha pelo sim. Estou talvez ficando vesgo, mas meu coração balança um samba de tamborim movido a gaita de fole que canta por mais uma mudança daquelas de encher a alma de fé, como foram outras várias que esse País me proporcionou, e nos proporcionou, viver.


*Barry Wolfe é advogado internacional, criminologista e sócio-fundador da Wolfe Associates Anti-Corruption Advisers.


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