Logotipo Allameda
Home Page Quem Somos Serviços Cases Clientes Contatos
 
 
05/08/2009
Bits na indústria editorial
Por Tom Venetianer

Olá, você aí na poltrona... é isso mesmo, você que está sentado na frente do seu micro, editorando confortavelmente no seu micro PC/Windows. Você sabia que em 1984 esta moleza não existia ainda? Que mouse era rato peludinho mesmo (igualzinho ao Jerry), que desktop em inglês significava tampo da mesa e que windows eram janelas com vidro?

A história da composição tipográfica

Pois é, a editoração eletrônica, tal como a conhecemos, é coisa de um passado recente que hoje parece tão remoto. Vou lhe contar esta história, sem porém retroceder até Herr Gutemberg (clique aqui para ler a respeito). Vamos começar pela revolução causada pelo lançamento de uma máquina de escrever (isso você sabe o que é, não é mesmo?) da IBM, chamada Selectric, mais tarde batizada de composer. Nos idos de 1975, a IBM era a rainha-mãe majestosa e imbatível de todos os inventos da alta tecnologia. Inventou o cartão perfurado, as máquinas de classificar cartões e os mainframe de última geração. Inventou também a primeira máquina de composição tipográfica a frio que não exigia chumbo derretido - a tal da Selectric. Ela podia trabalhar com vários tipos, cambiáveis através da substituição das chamadas esferas de tipos ou rodas de margarida. Havia umas 30 ou 40 esferas, permitindo criar artes finais muito bacanas e numa rapidez bem maior do que se conseguia com os velhos linotipos.

A maquineta era cool, dando origem a um grande número de micro-birôs de composição. Só havia um entrave: o corpo dos caracteres ficava limitado a 10, 12 e no máximo 14 pontos. No pobrema: a galharda inventividade dos americanos funcionou novamente. Mais ou menos no final dos anos 60, los hermanos del norte tinham inventado as máquinas foto-compositoras, monstrengos tão grandes quanto os linotipos, porém produzindo texto composto com eficácia muito maior e sem chumbo derretido.

Naqueles idos de 1975, a vedete das foto-compositoras era a Varityper Headliner. Ela produzia tiras com uma polegada de largura e qualquer comprimento, podendo compor tipos de 12 a 72 pontos. A composição era feita através de um processo fotográfico. Os tipos eram dispostos em rodas metálicas de 12. Cada roda possuia uma fonte, um corpo e um dado peso. Assim, para um jogo Helvética completo era preciso dispor de umas 50 rodas. A roda, contendo o tipo desejado, era montada na máquina e girada até o caráter se alinhar com a lente do aparelho. Acionava-se uma chave, acendendo uma luz e tirando a fotografia do caráter em questão no papel da composição. Este papel era evidentemente foto-sensível. De clique em clique e de girar em girar da roda, iam se compondo textos. Era um processo trabalhoso e demorado, ainda assim muito melhor do que o dos linotipos e da composição gutemberguiana de tipos, por sinal muito usados ainda até o final dos anos 70.

O passo seguinte da escalada para a composição digital nascia também na Varityper, com seu sistema Comp/Edit. Em 1981 ela a lançava, uma fotocompostora já sem as rodas de tipos, funcionando através da gravação magnética em floppy disks. Como numa máquina de escrever, o operador batia o texto, o via na tela de um monitor de fósforo verde e o texto ia sendo gravado no floppy para depois a máquina queimá-lo no papel-filme. Os estilos de texto (negrito, itálico, etc.) eram obtidos através de comandos super-complicados de formatação, algo louco como a atual linguagem de anotação HTML. Apesar do processo ser bem rápido (bom, ao menos quando comparado aos outros da época), o operador tinha que conviver com os comandos de formatação, sendo que na tela - alfanumérica evidentemente - ele via só tipos em Courier, tendo que imaginar como que a página ficaria quando composta. A ausência da visualização da página formatada exigia inúmeras refeituras e revelações do papel-filme.

Enquanto isto, em Gotham City

Se não fosse por uns visionários, os microcomputadores nunca teriam nascido, já que os luminares da IBM achavam que computador doméstico era uma bobagem monumental. Tanto é que a blue chip company, como era conhecida nos tempos da Mariquinha, perdeu o bonde da história, deixando que outros dessem início à revolução da microinformática. O primeiro micro chamava-se Altair, mas não foi sucesso comercial. Depois surgiu o Apple Lisa e seu sucedâneo, o Macintosh, e o mundo da composição tipográfica nunca mais foi o mesmo. Ma spera aí, estou botando a carroça na frente dos asnos...

A descoberta, do que mais tarde viria a ser chamado de desktop publishing, não nasceu com os micros. Por volta de 1983, as empresas Xyvision, EPICS e Texet (você ouviu falar delas? Não? Nem podia, elas não existem mais) lançavam dois super-minicomputadores dedicados, introduzindo o conceito de automatic page composition (composição automática de páginas). E pasme, esses sistemas possuíam a capacidade de compor textos em forma digital, sendo que o operador podia enxergar o resultado do seu trabalho em WYSIWYG (what you see is what you get, ou o que você vê é o que será obtido.. na impressão). Os monstrengos custavam 300 milhetas de dólares ou mais, mas aceleravam o trabalho da composição de forma extraordinária. Se você passear no museu dos dinossauros de uma editora grande como a Abril talvez ainda esbarre com uma EPICS.

Neste meio tempo, dois jovens hippies, ambos Estevãos (Steve Jobs e Steve Wozniak), estavam trabalhando febrilmente na invenção de um micro que realmente revolucionaria a indústria. Os primeiros micros Apples, lançados nos idos de 1978, eram brinquedos de criança, porém apontavam para o brilhante futuro da microinformática. Na trilha do Apple, pipocaram outros microcomputadores, da Radio Shack, Eagle e Tecmar, empresas que com certeza você também não conhece.

Aí, no final de 1981, o gigante adormecido acordou. A IBM lançava, com fenomenal alarde pela imprensa, seu incrível IBM PC (Personal Computer). Provido de um sistema operacional desconhecido (IBM DOS), desenvolvido por uma empresa idem (Microsoft) e empurrado para a IBM por um jovem recém escapado da faculdade (William Gates III), o PC era uma geringonça digital que custava uns 5 mil dólares, possuindo estonteantes 640 Kbytes de memória RAM (todos os micros da época tinham 64 Kbytes no máximo), dois drives floppy de 5 1/4, monitor monocromático de 13 e uma velocidade de clock que deixava todos de queixo caído - 1 MHz, exatamente 500 vezes menos do que seus atuais primos de 5ª geração. E havia mais: com uma placa, que custava uns 800 dólares, podia-se transformar o PC numa estação gráfica, que reproduzia 3 cores (amarelo, verde e vermelho) na formidável resolução de 300 x 200 pixéis.

Desnecessário dizer que os dois Estevãos fizeram nas calças. As vendas do então Apple II despencaram para próximo do zero. Jobs, que não era jogador de se botar na reserva, decidiu combater o Golias IBM. Além da sua petulância, deu sorte também. Nos laboratórios da Xerox, que na época se debatia com a decisão de disputar ou não o emergente e promissor mercado dos microcomputadores, estava se desenvolvendo um dos mais espantosos inventos da época - a interface gráfica, que mais tarde revolucionaria a tecnologia digital. Mas olha eu me adiantando de novo...

A comoção da tecnologia laser

Em 1983, a Canon japonesa desenvolveu uma engenhoca chamada laser engine. Baseado na tecnologia do raio laser, o invento da Canon permitia construir impressoras que poderiam imprimir usando o mesmo pózinho preto das então fabulosas impressoras da Xerox. Era o coração que faltava para a tecnologia da impressão desktop de alta qualidade. A Hewlett Packard (HP), também uma pioneira do high-tech que emergia no Vale do Silício, percebeu o potencial do invento da Canon, comprou-o, lançando em 1984 a HP LaserJet, a primeira impressora a laser desktop do mundo. Ela imprimia a 300 dpi de resolução, algo espantoso quando comparado com as impressoras matriciais de 72 pontos por polegada que dominavam o mercado desktop. Custava um pouco muito (umas 8 mil pilas americanas já pagavam a máquina), porém a qualidade da impressão era near-photosetting, ou seja, próxima da fotocomposição.

Quase concomitantemente ao lançamento da HP LaserJet, uma ilustre desconhecida fabricante de software, a Adobe Systems, anunciava ter desenvolvido uma linguagem de programação que permitia reproduzir no papel imagens quase sem serrilhas. Seu invento recebeu o requintado nome Postscript. Instalado em impressoras laser providas de um interpretador da linguagem Postscript, qualquer microzinho mixuruca poderia criar páginas gráficas belíssimas e representá-las em 300 dpis. Com a compra do invento da Adobe, a HP lançou a HP LaserJet II, passando a oferecer ao mercado uma máquina que, agora sim, poderia fazer fotocomposição a seco e de alta qualidade de impressão.

Só faltava a cerejinha no topo do sundae. E aí, de novo, entram em cena nossos dois heróis.

Com a curva do faturamento aproximando-se perigosamente do eixo das abcissas, Jobs e Wozniak tinham diante de si a opção do inventar novamente algo genial ou deixar o sonho da Apple morrer. Os dois foram à luta, lançando em 1984 seu Macintosh LE. Filho bastardo de um desastre mercadológico, o Apple Lisa, o Macintosh tinha algo que nenhuma empresa da microinformática possuía - uma interface gráfica (GUI). O conceito da interface GUI (graphical user interface), um invento da Xerox, no qual ninguém nessa empresa depositava um vintém furado, foi adaptado na Apple para funcionar no Macintosh. Na visão de Jobs, a GUI era algo que botaria o IBM DOS nos chinelos, conferindo aos Macintosh aquilo que no DOS faltava sobejamente: amigabilidade. Jobs e Wozniak montaram rapidamente o quebra-cabeças do user-friendliness, adicionando ao Macintosh um mouse, um monitor gráfico, uma caixa de design manero e um sistema operacional sensacional - o System. Desta vez a imprensa pegou a carona da genialidade dos dois Steves: o lançamento do Macintosh foi realmente um evento marcante. Da mesmice e chatice e burraldice e incomodice dos PCs nascia o glorioso Mac, o primeiro micro fácil de usar até por um leigo em computação!

Salada russa sem batatas?

Havia porém um óbice: Como acontece com qualquer computador, para ser útil, o Macintosh precisava de software aplicativo. Enquanto que para o PC já existiam centenas de aplicativos bacanérrimos - você lembra do banco de dados da Ashton Tate (DBase II), do processador de textos WordStar e da planilha Lotus? - para o neném Mac a Apple teve que escrever, às pressas, uns softwares seus mesmos. Mas o quê o usuário iria fazer com um processador de texto capenga (Claris Word) e uma calculadora digital de 4 operações? Faltavam batatas e sal nesta salada. Porém, uma vez mais a sorte favoreceria os dois Steves.

Pertinho da base operacional da então picola ma non tropo Microsoft, um outro visionário estava a minhocar. Paul Brainerd, um jornalista por profissão, trabalhava em 1984 na EPICS. A empresa era então famosa por seus sistemas de composição digital, utilizando software proprietário e minicomputadores caríssimos. Para Paul, o futuro da composição gráfica a seco estava ali, mas não na forma dos tiranossauros EPICS. Juntando alguns trocados da sua poupança, quatro amigos do peito e muita coragem, Paul fundou naquele ano a Aldus Corporation. Sua meta: criar um programa de composição digital que rodasse em PCs. Na COMDEX outono daquele ano, Paul viu o Mac e apaixonou-se por ele. Percebeu que a interface gráfica seria ideal para o programa que sua Aldus estava desenvolvendo. Mandou parar todas as máquinas, quer dizer, de fato mandou seus sócios pararem de desenvolver o programa para o PC, e entrou em contato com John Sculley, o então recém empossado presidente da Apple, que fora contratado para tirar a empresa do buraco em que os Steves tinham na metido.

John Sculley e Paul Brainerd procuraram o presidente Adobe, propondo-lhe uma parceria, na qual a Adobe entraria com o Postscript, a Apple com o Mac e a Aldus, bem a Aldus estava desenvolvendo o programa que colocaria as três empresas nas nuvens da fama. No início de 1985, a Aldus lançava o PageMaker, o sonho de Brainerd virando realidade. Foi Paul que inventou o termo desktop publishing, ou seja, a editoração eletrônica feita literalmente no topo da mesa de um microcomputador. Ao time se juntaria ainda a HP, com seu LaserJet II provido de Postscript. O invento de Paul, associado aos das 3 outras empresas botaria a indústria do publishing de cabeça para baixo. Nascia a Era do DTP, só que apoiada por uma plataforma operacional que não tinha base, a do Apple Macintosh. Em 1985 faltava ao Mac uma pequena coisinha para seu sucesso total: consumidor que comprasse um micro rodando com a mais fabulosa interface gráfica até hoje inventada.

Nasce uma estrela ajambrada

Encravado nas montanhas e florestas do estado de Washington, e pertínho de onde trabalhava a equipe de Paul Brainerd (Seattle), fica a cidadezinha de Redmond. Foi neste ambiente bucólico que Sir William Gates III decidiu estabelecer a base da sua bem sucedida Microsoft. E naqueles dias funestos de 1985, Bill estava roendo as unhas e vociferando palavrões. Afinal, não seria a formidável IBM que iria derrubar sua cria - o MS-DOS - e sim dois moleques mal saídos da universidade e um jornalista que virou suco. O Macintosh aparentava ser uma séria ameaça ao sucesso comercial da Microsoft e o PageMaker idem. Afora do MS-DOS, o faturamento da Microsoft provinha de compiladores de linguagens de programação, não exatamente o tipo de software que vende muito. Se alguém tirasse o mercado do DOS, aí babau, a Microsoft já era. O Mac System e o PageMaker eram esta ameaça.

Se você não pode ganhar a guerra, junte-se aos inimigos, filosofou Bill. Meio de pires na mão, procurou John Sculley. Propôs uma parceria para aumentar a base dos programas aplicativos do Macintosh. Sculley, que vendia antes Pepsi Cola e sabia que a falta de uma base de consumidores derrubava qualquer produto, aceitou. Juntava-se a fome com a vontade de comer e os dois decidiram partir para uma parceria agressiva. A Microsoft começou a desenvolver programas para o Mac. Ainda em 1985, lançava uma planilha com nome meio esquisito (Excel, de excellent), que, segundo as palavras proféticas de Bill Gates, derrubaria a gigante Lotus e colocaria o consórcio Apple-Microsoft nas prateleiras de todas as lojas de informática.

Para desenvolver programas para o Mac, a Apple teve que abrir, ao menos em parte, o código fonte do sistema operacional Mac System, então em sua versão 2. Foi assim que, por puro acaso, os engenheiros da Microsoft puderam botar suas mãozinhas na primeira interface gráfica e no primeira sistema operacional gráfico. E foi por esse pequeno acaso também que, em 1986, a Microsoft lançava a versão 1 do sistema operacional gráfico Windows. Nem toda a guerra estava perdida, meditou Bill.

Nesse meio tempo, a Aldus se debatia com um problema peculiar. Tinha inventado um programa espetacular, que junto com hardware de uns 5-8 mil dólares fazia as mesmas maravilhas que um sistema EPICS de 300 mil, sendo que o conjunto cabia na mesa de um editor de jornal do interior, só que a tralha toda não vendia pois faltavam usuários Mac para toda essa maravilha. Quando a Microsoft começou a trabalhar com a Apple, Paul sacou que o intuito não era o de ajudar a moçada de Cupertino (sede da Apple) e sim de fazer um discreto trabalho de engenharia reversa. Quando o Windows 1 foi lançado, Paul procurou Bill Gates, oferecendo-lhe uma versão PC do PageMaker. Gates viu na oferta a possibilidade de alavancar as vendas de sua interface gráfica meio manquitola. Aceitou, e a equipe técnica da Aldus, que já mexia com desembaraço no System, ajudou a Microsoft a aperfeiçoar o Windows enquanto fabricava a versão PC do PageMaker. Em 1987 foi lançado o PageMaker PC, junto com o Windows versão 2. O círculo tinha se fechado, a era da editoração eletrônica de mesa, tão sonhada por Paul Brainerd, desta feita virava realidade.

E você aí da poltrona? Tudo bem com seu QuarkXpress rodando no Mac? Mas isto aí é outra estória, não é mesmo?

Sobre o Autor

Antes de tornar-se autor de livros, consultor de empresas e, mais recentemente, em marketing e comércio eletrônicos, Tom Venetianer foi executivo de várias grandes corporações multinacionais. Ocupou as posições de vice presidente na Anderson Clayton, gerente de vendas da Brown Boveri e consultor associado da Arthur D. Little South America. Por seu espírito questionador e muito crítico, Venetianer já fez grandes amigos e alguns bons inimigos. Ele mesmo se considera um boca de inferno. Suas obras refletem sua inconformidade, ao mesmo tempo em que revelam sua constante preocupação em melhorar este mundo através da educação.
Na sua intimidade, Tom ama intensamente sua família, baba com suas netas e paparica sua cadela poodle Niki. Quando dispõe de tempo livre, gosta de pintar, ouvir música (classics please) e de viajar pelo mundo.

(para contatar o autor, clique aqui)
      
(publicado em Allameda a 05/08/2009)

Compartilhar



Retornar
 
 
 
Artigos
Artigos de Clientes de Allameda, especialistas em várias áreas. A republicação é livre.
Releases
Acesso a todos os press-releases e informações chave de nossos clientes.
Fotos em alta
Fotos de produtos, executivos e instalações de clientes de assessoria de imprensa.

ALLAMEDA.COM R Dr Rafael Correia 65 Cjto 4 Vila Romana | São Paulo | +55.11.3926-5580

powered by Fábrica de Tempo