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07/03/2002
Transparência é tudo
por Mauricio Bonas

Imagine a cena: de sua janela no escritório, você vê um homem sendo seqüestrado. Você tem o celular na mão e pensa que deve ligar imediatamente à polícia. Mas, temeroso da reação que sua mão terá a tão terrível notícia, acaba não mandando que ela tecle os números. As empresas andam fazendo isso sem perceber.

Grandes ou pequenas, criativas ou conservadoras, online ou desplugadas –não importa o perfil das empresas e como se posicionam frente ao mercado—, as organizações sofrem uma epidemia que mina suas mais importantes reservas de energia. O problema é a falta de comunicação interna. Trata-se de questão relegada a segundo plano ou, pior, nem observada pelos executivos.

Comunicação interna, para a esmagadora maioria dos gestores e até para o pessoal de comunicação e marketing, é o similar empresarial do desastroso discutir a relação dos casais de namorados: uma chatice infindável que leva a lugar algum.

Claro que a impressão é falsa, tanto no caso dos enamorados quanto dos executivos. O problema não é tão chato e, cada vez mais, está na ordem do dia de empresas que vivem no equilíbrio precário dos mercados que mudam rapidamente e o tempo todo. Chega a ser impressionante que companhias que pagam salários e benefícios crescentes desprezem seus colaboradores tão ostensivamente quando chega a hora de dizer o que acontece na organização.

As empresas, que em algum momento da indústria seriada de Ford chegaram a dividir tanto as tarefas em migalhas que seus empregados nem sabiam o que fabricavam, estão usando o mesmo tipo de estratégia para manter funcionários desinformados. Como querem que as pessoas trabalhem bem e assumam o norte magnético da companhia se elas não sabem para que lado remar?

Vamos ser mais prosaicos: como você fica sabendo que há uma crise em curso na empresa onde trabalha? Na imensa maioria dos casos é através da máquina de café. A rádio-cafezinho é o veículo por excelência das empresas. Sem dúvida isso gera todo o tipo de distorção e, mais tarde, de frustração: é usual que os empregados saibam a versão oficial através de fatos já passados, nos quais não podem interferir. Isto é, a verdade da companhia surge quando um departamento é desmantelado, gerências são demitidas ou o assunto vai parar na imprensa. Não é coincidência: trata-se de uma versão empresarial para o Mito da Amante, aquele que reza que a pessoa traída em um relacionamento amoroso é sempre a última a saber.

O curioso é que se comunicar com o público interno de uma empresa, por menor ou por maior que seja ela, é das tarefas mais simples. Afinal, as pessoas estão logo ali, você tem acesso a todas e a qualquer uma delas, e os métodos de comunicação são tão velhos quanto a invenção das empresas. Mas parece que, por isso mesmo, as organizações esqueceram a importância de ter seus pares bem-informados. E, ainda, que elas usam aqueles slogans batidos (o ser humano em primeiro lugar ou esta firma é a soma de seus colaboradores) só por usar.

Para fazer frente a este caudaloso rio de silêncio algumas poucas medidas podem ser tomadas:

- crie um ou vários canais de comunicação abertos, e bidirecionais, entre a mais alta gerência e todos os funcionários

- coloque na ponta superior destes canais o presidente da empresa. Executivos de médio escalão, contaminados eles próprios pela falta de informação, podem se sentir inseguros e estragar tudo

- dê a missão de informar o público interno a um profissional de comunicação (local ou terceirizado) que se dedique integralmente à missão de ser boca e ouvidos da empresa

- a empresa vai lançar um produto em coletiva de imprensa? Ótimo: faça no período anterior uma entrevista coletiva interna e não deixe seus pares conhecer a novidade no jornal de amanhã

- crie um house-organ colaborativo, em que qualquer um possa externar opiniões, na intranet da empresa. Faça com que ele seja pelo menos semanal

- crie jornais murais e uma versão mensal do house-organ em formato impresso

- acostume a alta gerência da empresa a ter encontros mensais, fora do local de trabalho, com os funcionários

- motive as pessoas a exercer a transparência, em todos os níveis da empresa, para manter funcionários atentos ao momento vivido

- use o email: faça webmarketing interno e preste rigorosa atenção às sugestões dos empregados

- premie boas sugestões e críticas bem-calçadas

- pergunte e estimule as pessoas a responder a verdadeira grande questão do momento: afinal, pra que servem os segredos?

Sobre o Autor: Mauricio Bonas, jornalista com mais de 15 anos de experiência profissional, trabalhou para veículos como Folha de S Paulo, Som3 e Jornal do Brasil, tendo ainda sido responsável pela assessoria de comunicação de companhias como Acer, Microsoft, Oracle e LG Electronics. Online desde meados dos anos 80, no início dos BBS’s, foi um dos primeiros jornalistas brasileiros a mergulhar na imprensa via internet, em 1996. Atualmente faz parte da equipe de Allameda.
      
(publicado em Allameda a 07/03/2002)

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